Afinal, o que é letramento digital?
Patrícia Barreto – Responsável pedagógica pelo NUPES (Núcleo de Pesquisa Somai)
Um termo que anda circulando por ai é “Letramento Digital”. Aliás, letramento virou palavrinha fácil. Fico imaginando qual o real significado, já que o conceito base ainda tem assimilações tão diversas.

É preciso lembrar que o termo letramento começou a ser usado no Brasil numa tentativa de tradução do Inglês “Literacy”, cujo significado refere-se à condição de uma pessoa com relação às competências de leitura e escrita. Numa sociedade pautada na cultura escrita, saber usar essa linguagem traz o conhecimento como consequência natural: quem muito lê, muito aprende. A tradução do termo – letramento -, conferida à Mary Kato (No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, 1986), passou a ser amplamente usado em ocasião das tentativas de resignificação do conceito de alfabetização no Brasil. Isto porque o ato de alfabetizar no país do carnaval estava restrito a ensinar e aprender a língua como um simples código.
Historicamente, entre nós brasileiros, o estado de alfabetizado ou de alfabetizada não conferia à pessoa a competência de uso da linguagem escrita na sua diversidade. Nesse universo, são bem conhecidas histórias de pessoas que sabem expressar oralmente sílabas gráficas agrupadas (ou que sabem decodificar, como preferir), mas que são incapazes de compreender o que diz um simples texto escrito. Pois bem: estudos da Psico e Sociolinguística e as estatísticas das competências dos brasileiros demandavam resignificar esse conceito, já que aprender a linguagem escrita vai muito mais além disso. Era preciso conceituar as competências de uma pessoa com relação aos usos sociais dos objetos da cultura escrita – os textos escritos, com seus diferentes registros – para então, justificar que o ensino da linguagem escrita precisava (e ainda precisa) ser ressignificado.

Nem bem essa discussão se estabeleceu, aparece o letramento digital. O fato é que esse termo virou sinônimo de “competência”, principalmente o inglês “Literacy”. E eu nem vou me deter aqui em trazer as questões que envolvem o uso dos termos “alfabetização e letramento”, “alfabetizar em contexto de letramento”, ou alfabetização matemática, cartográfica. Minha questão agora é o letramento digital.
Ao se considerar o que significa letramento, o que muda nesse conceito com relação ao letramento digital? A linguagem escrita muda por que o suporte é digital? Existem novos registros escritos nesse universo? É preciso saber linguagem de programação para se adquirir o letramento digital? O que é afinal?
Estive pesquisando o que as minhas referências falam sobre o assunto e minhas suspeitas foram confirmadas: o meio digital traz apenas novos suportes de linguagem escrita e, no máximo, variações de gêneros já existentes em suportes impressos. Considerar que a forma escrita dos chats ou das redes sociais seja um novo gênero escrito, para mim, ainda é algo a ser discutido. O que mudou foi a velocidade em que se tem acesso à linguagem escrita. Talvez, o novo gênero que fatalmente precisa ser aprendido (ou simplesmente aproximado dos meros usuários) seja a linguagem de programação de computadores e seus diferentes registros. O que me parece ser muito necessário é discutir, sempre, como analisar, como orientar, como aproveitar a agilidade, como intervir na construção de sentidos dos conteúdos que circulam nas novas tecnologias digitais e na rede de computadores. Além disso, precisamos conhecer as condições de produção novas tecnologias (como, porque, com qual intenção foi produzido), de forma crítica e transformadora.
http://www.somai.com.br/afinal-o-que-e-letramento-digital/


